Resumo do artigo feito pelo Tio Chatinho:
Neste artigo, Nepô apresenta a ideia de que a dificuldade atual de compreender o mundo digital tem origem em uma crise paradigmática nas Ciências Sociais. Inspirado em Thomas Kuhn, ele argumenta que as teorias dominantes foram formuladas em um ambiente midiático mais centralizado e, por isso, perderam capacidade de explicar a nova realidade criada pela Revolução Digital. A partir da tradição de McLuhan e da perspectiva da Escola Bimodal, o texto propõe analisar a Macro-História humana por meio do tripé demografia, mídias e modelos de cooperação, defendendo que o digital inaugura uma nova etapa civilizacional marcada por ambientes de comunicação descentralizados, rastros digitais e novos sistemas de curadoria coletiva, exigindo assim a revisão dos fundamentos da chamada Ciência Social 1.0.
As melhores frases do artigo (selecionadas pelo Nepô):
McLuhan é uma espécie de Darwin 2.0, que dá uma guinada profunda em como víamos e como devemos ver a caminhada humana.
Nós não enxergamos a sociedade diretamente. Enxergamos a realidade por meio de paradigmas. Eles funcionam como lentes interpretativas que filtram os fatos. A partir dessas lentes, criamos narrativas para explicar o mundo.
Criamos as ciências justamente para isso: criar paradigmas para que possamos entender os fatos de forma mais adequada.
O que era válido ontem por quase todo mundo, amanhã deixa simplesmente de valer, pois não consegue mais ajudar as pessoas a lidar com os fatos.
Mais gente, novas formas de comunicação e cooperação hão de vir ao longo do tempo. Não é uma opção, mas uma obrigação.
Isso faz parte da vida de uma Tecnoespécie. Se existir outra parecida como nós no universo, a regra tenderá a ser a mesma.
Entre a mudança na mídia e as transformações sociais sempre houve um enorme intervalo de tempo.
As mudanças apareciam na política, na economia ou na cultura, mas a origem midiática ficava escondida no passado remoto.
A velocidade das mudanças torna a crise paradigmática da ciência social 1.0 mais evidente.
As mídias de massa foram uma gambiarra provisória para lidar de forma rústica e improvisada com o aumento demográfico.
O problema não é a incompetência dos profissionais que atuam na sociedade, mas a fragilidade dos paradigmas utilizados na sua formação,que começa da base e passa pelas universidades.
Estamos vivendo um momento em que as explicações existentes da Ciência Social 1.0 já não conseguem dar conta da complexidade dos novos fenômenos. Surge então a necessidade de revisar os alicerces interpretativos.
A evolução humana não é uma linha reta de certezas acumuladas, mas uma sucessão de saltos impulsionados por crises que as velhas teorias já não conseguem explicar.
A tecnologia não é apenas um acessório da nossa existência, mas o DNA de uma tecnoespécie que precisa reinventar sua comunicação para não colapsar sob o próprio peso demográfico.
O descompasso entre o que vivemos e o que entendemos nasce do fato de tentarmos pilotar uma civilização digital usando o manual de instruções de um mundo analógico que já não existe.
A verdadeira revolução do digital não reside na velocidade da informação, mas na criação de uma nova arquitetura de cooperação que as mídias de massa, em sua natureza centralizadora, jamais puderam permitir.
Não atravessamos apenas uma mudança de época, mas uma mudança de lógica, onde a curadoria baseada em rastros substitui a gestão baseada em ordens, alterando o eixo de sustentabilidade da sociedade.
As melhores frases dos outros:
“O aspecto mais importante das ferramentas de comunicação é que elas não apenas transmitem mensagens, mas moldam a própria estrutura da sociedade.” – Marshall McLuhan.
“Cada nova tecnologia é um sismo que altera as placas tectônicas da cultura e da organização humana.” – Marshall McLuhan.
“As crises são uma pré-condição necessária para a emergência de novas teorias.” – Thomas Kuhn.
“O significado das crises consiste exatamente no fato de que indicam que é chegada a ocasião para renovar os instrumentos.” – Thomas Kuhn .
“Nós moldamos nossas ferramentas e, depois, nossas ferramentas nos moldam.” – John Culkin (frequentemente associado à síntese do pensamento de Marshall McLuhan).
“A ciência não progride por acumulação de conhecimentos, mas por revoluções que substituem um paradigma por outro.” – Thomas Kuhn.
“Toda grande mudança é precedida pelo caos.” – Deepak Chopra.
Vamos ao Artigo:
“A ciência avança de funeral em funeral.” – Max Planck.
Primeiro ponto.
Frase em destaque:
Nós não enxergamos a sociedade diretamente. Enxergamos a realidade por meio de paradigmas. Eles funcionam como lentes interpretativas que filtram os fatos. A partir dessas lentes, criamos narrativas para explicar o mundo.
Os fatos muitas vezes nos mostram que os paradigmas estão equivocados e, por causa disso, precisamos fazer ajustes.
Frase em destaque:
Criamos as ciências justamente para isso: criar paradigmas para que possamos entender os fatos de forma mais adequada.
Porém, nem sempre as teorias rimam com os fatos.
Thomas Kuhn, um dos padrinhos da Bimodais, nos deixou uma das ideias mais poderosas para entender como o conhecimento humano, via ciência, evolui.
Para ele, a ciência não avança de forma linear, acumulando certezas. Ela avança por meio de crises.
Ou seja, o conhecimento humano não é um processo contínuo, harmônico, mas descontínuo e desarmônico.
Frase em destaque:
O que era válido ontem por quase todo mundo, amanhã deixa simplesmente de valer, pois não consegue mais ajudar as pessoas a lidar com os fatos.
Em determinados momentos, os paradigmas existentes deixam de explicar bem os fatos. Surgem então as chamadas anomalias.
Os fatos passam a não rimar mais com as teorias disponíveis. Quando isso acontece, abre-se espaço para uma revolução científica.
É verdade que Kuhn formulou sua análise olhando principalmente para as ciências naturais e para o funcionamento destas comunidades científicas.
Eles nos deixou o legado: quando os fatos deixam de ser bem explicados pelas teorias dominantes, surge uma crise paradigmática.
É exatamente esse tipo de crise que estamos vivendo agora. Não nas ciências naturais, mas nas ciências sociais.
A chegada do digital não gerou apenas novas ferramentas e formas de agir diferentes.
Ela provocou, em primeiro lugar, mais uma Revolução Midiática dentro da jornada humana.
Vamos entender:
O Sapiens é uma Tecnoespécie que modifica suas formas de comunicação e cooperação para lidar com o aumento da população e da complexidade social.
Frase em destaque:
Mais gente, novas formas de comunicação e cooperação hão de vir ao longo do tempo. Não é uma opção, mas uma obrigação.
Frase em destaque:
Isso faz parte da vida de uma Tecnoespécie. Se existir outra parecida como nós no universo, a regra tenderá a ser a mesma.
Ao longo da Macro-História tivemos grandes saltos desse tipo: a chegada do gesto, da oralidade, da escrita manuscrita e depois da escrita impressa.
Cada uma dessas mudanças abriu espaço para novos modelos de cooperação e para novas civilizações.
Por que isso não ficou evidente no passado?
O intervalo entre a causa e o efeito dessas mudanças.
No passado, essas transições foram extremamente lentas.
A escrita manuscrita levou séculos para reorganizar a sociedade. A escrita impressa demorou décadas para consolidar novos arranjos institucionais, como a expansão das religiões organizadas, o fortalecimento da ciência moderna e a consolidação das repúblicas.
Frase em destaque:
Entre a mudança na mídia e as transformações sociais sempre houve um enorme intervalo de tempo.
Por causa dessa distância temporal, quase ninguém percebia claramente a relação de causa e efeito.
Frase em destaque:
As mudanças apareciam na política, na economia ou na cultura, mas a origem midiática ficava escondida no passado remoto.
Um exemplo?
No Wikipédia, vai se ver que se considera o início da Idade Moderna, a queda de constantinopla.
Veja aqui:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_Moderna
Lá se diz:
“Vários eventos e transições históricas foram propostos como o início do início do período moderno, incluindo a queda de Constantinopla em 1453.”
A prensa, comparada à bússola, é vista como algo periférico e não central para o início da Idade Moderna, criada em torno de 1450.
Agora estamos vivendo algo diferente.
A Revolução Digital muito mais acelerada não está demorando séculos para mudar a sociedade, mas modificando fortemente o mundo dentro de uma mesma geração.
As mudanças estão acontecendo de forma muito mais rápida e, por causa disso, muito mais visível.
Confirma a tese de Marshall McLuhan, ignorado e esquecido, que dizia que novas mídias modificam profundamente a sociedade.
Frase em destaque:
A velocidade das mudanças torna a crise paradigmática da ciência social 1.0 mais evidente.
De repente, as explicações tradicionais sobre economia, política, educação, trabalho e comportamento humano começam a falhar ao mesmo tempo.
As teorias não conseguem explicar bem o passado recente, o presente turbulento e muito menos projetar o futuro.
Surge então uma sensação generalizada de confusão.
É importante esclarecer um ponto. Não é correto afirmar que ninguém, ao longo da história, tenha percebido o papel das mídias nas transformações sociais. Autores como Harold Innis e, principalmente, Marshall McLuhan dedicaram boa parte de sua obra exatamente a esse tema.
McLuhan sintetizou essa percepção em uma frase simples e poderosa: mudou a mídia, mudou a sociedade.
O problema não é a ausência completa dessas ideias, mas o fato de que elas não se tornaram o eixo central das explicações dominantes das Ciências Sociais.
Os canadenses ficaram na periferia da Ciência Social, não tiveram o papel devido que mereciam.
Frase em destaque:
McLuhan é uma espécie de Darwin 2.0, que dá uma guinada profunda em como víamos e como devemos ver a caminhada humana.
As narrativas mais influentes e que servem de base da formação atual dos profissionais de todas as áreas das ciências sociais correlatas continuaram organizadas principalmente em Motores da História ligadas aos fatores econômicos, políticos ou culturais.
A Escola Bimodal parte justamente da tradição Mcluhaniana, procurando aprofundá-la.
O que acrescentamos a essa linha de pensamento é a incorporação de um tripé estrutural para compreender melhor as grandes mudanças civilizacionais: demografia, mídias e modelos de cooperação.
A lógica desse tripé aparece quando observamos a Macro-História humana.
O aumento populacional eleva o nível de complexidade social. Essa complexidade torna os modelos de comunicação e coordenação existentes insuficientes.
Surge então a necessidade de novas mídias capazes de ampliar nossa capacidade de comunicação. A partir dessas novas mídias tornam-se possíveis novos modelos de cooperação.
Eis a fórmula lógica:
S = D/C
Quanto mais gente, temos mais complexidade (C), que nos obriga a aumentar a descentralização (D) para que possamos manter a sustentabilidade (S).
Esse encadeamento ajuda a explicar por que as civilizações se reorganizam ao longo do tempo sempre na direção de menos para mais descentralização.
A história humana passa a ser vista, assim, como uma sequência de reorganizações provocadas pelo aumento da complexidade demográfica e pela chegada de novas mídias que permitem modelos de cooperação mais sofisticados.
A Revolução Digital precisa ser entendida dentro dessa lógica.
Alguns podem argumentar que outras tecnologias — como rádio, telefone e televisão — também transformaram profundamente a sociedade em poucas décadas.
Isso é verdade. Porém, há uma diferença estrutural importante.
Essas mídias eram essencialmente massificadoras e centralizadoras. Elas ampliavam a capacidade de distribuição de informação, mas mantinham o modelo de emissão concentrado em poucos atores.
A centralização repetiu modelos do passado, não criando novas formas de cooperação como agora. Daí o susto.
O digital tem uma natureza diferente.
Ele cria ambientes de comunicação e coordenação descentralizados, nos quais qualquer pessoa pode produzir, distribuir e organizar informação em larga escala.
Mais do que isso, ele gera rastros digitais que permitem novos mecanismos de coordenação coletiva.
A partir desses rastros surgem novos modelos de cooperação, baseados em sistemas de curadoria distribuída. Plataformas digitais, mercados de intermediação e ecossistemas de reputação são exemplos desse novo arranjo.
Frase em destaque:
As mídias de massa foram uma gambiarra provisória para lidar de forma rústica e improvisada com o aumento demográfico.
A cooperação, via Curadoria Digital, simplesmente não era possível nas mídias anteriores.
Quando analisamos esse fenômeno com os paradigmas tradicionais das Ciências Sociais, surgem grandes dificuldades de interpretação.
Muitas análises ainda tratam as plataformas digitais apenas como empresas tecnológicas ou como novos mercados.
No entanto, elas também representam algo mais profundo: uma mudança estrutural na forma como os seres humanos coordenam atividades coletivas.
É a passagem da Civilização 1.0 para a 2.0, pois temos as seguintes novidades para lidar com a atual complexidade:
- Pela primeira vez temos Mentes Artificiais nos apoiando de forma cada vez mais inteligente;
- Criamos um Modelo de Cooperação (Curadoria Digital), baseado em rastros digitais, o modelo similar ao das formigas.
Esse descompasso entre teoria e realidade ajuda a explicar por que tantas áreas do conhecimento estão em crise.
Administração, economia, educação, jornalismo, política e psicologia foram estruturadas dentro de um ambiente midiático mais centralizado.
uando esse ambiente muda radicalmente, as teorias começam a perder poder explicativo.
É nesse sentido que se afirma que muitos profissionais continuam sendo preparados para um mundo que está desaparecendo.
Frase em destaque:
O problema não é a incompetência dos profissionais que atuam na sociedade, mas a fragilidade dos paradigmas utilizados na sua formação,que começa da base e passa pelas universidades.
Tentamos compreender a Civilização 2.0 com conceitos que nasceram na Civilização 1.0.
A proposta da chamada Ciência Social 2.0, que a Escola Bimodal também denomina Ciência da Inovação, surge como uma tentativa de revisar esses fundamentos.
Essa abordagem procura reorganizar o estudo das mudanças sociais a partir da relação entre crescimento populacional, transformação das mídias e surgimento de novos modelos de cooperação.
Com esse olhar, fenômenos contemporâneos passam a ser interpretados de forma diferente.
Plataformas digitais deixam de ser vistas apenas como empresas e passam a ser analisadas como infraestruturas de coordenação social.
Processos como uberização e blockchainização passam a ser compreendidos como etapas de novos modelos de cooperação baseados em rastros digitais.
Essa mudança de perspectiva permite reinterpretar o passado, compreender melhor o presente e projetar cenários futuros com mais consistência.
Nada disso significa que as antigas abordagens das Ciências Sociais devam ser simplesmente descartadas. Muitas delas trouxeram contribuições importantes e continuam oferecendo insights relevantes.
O que está em jogo é outra coisa.
Estamos questionando os pilares da estrutura e não a periferia e determinadas conjunturas.
Frase em destaque:
Estamos vivendo um momento em que as explicações existentes da Ciência Social 1.0 já não conseguem dar conta da complexidade dos novos fenômenos.
Surge então a necessidade de revisar os alicerces interpretativos.
Toda transição paradigmática passa por esse tipo de tensão.
Esse, ao meu ver, é o principal desafio intelectual do nosso tempo: conseguir olhar para os fenômenos do mundo digital sem ficar prisioneiro das categorias estruturais herdadas que não explicam mais a caminhada humana.
É isso, que dizes?


































