• Milene Amoriello Spolador

Crescimento populacional, ordem espontânea e superdiversidade de interesses

Atualizado: 14 de Nov de 2019

e o que isso tem a ver com você

Somos uma tecnoespécie.


E não é de agora, com este mundo digital que está aí fora, é desde sempre, desde que passamos a ser denominados Homo, desde que o primeiro homem das cavernas pegou um osso de dinossauro para utilizá-lo como porrete para ir atrás do almoço – isso é tecnologia, e nós a usamos já há milhares de anos.


Assim, o Homo sapiens faz uso de tecnologia como extensão do seu próprio corpo desde o osso até a lança com ponta de pedra polida, desde a prensa até a máquina de escrever, desde o primeiro computador até o smartphone aí no seu bolso – tecnoespécie.


Por conta disso vamos nos adaptando a cada momento e inventando tecnologias conseguimos praticar um aumento demográfico gigantesco ao longo da nossa jornada.

Você já parou para pensar que, por exemplo, de 1800 até agora saltamos de 1 para 7 bilhões de seres humanos? É o maior salto demográfico da história do sapiens.


Para você ter uma ideia, por volta de 1500 éramos 450 milhões de pessoas e levamos 300 anos para chegar no primeiro bilhão em 1800 e de de lá para cá só viemos acelerando.


Por conta disso surge, obrigatoriamente, uma demanda por novas formas de sobreviver.

Surge então a internet e o computador pessoal, e estas tecnologias nos permitiram ter uma plataforma de comunicação novinha em folha que conecta estes bilhões de pessoas ao redor do mundo –impactando profundamente a sociedade.


Veja que a Internet não surge à toa, tratou-se de uma criação impulsionada pela demanda de vivermos melhor, com mais qualidade.


Estamos diante de um canal universal de comunicação que acabou por criar pessoas muito mais preocupadas em agir e fazer a diferença do que seguir e se conformar.


Temos então

…o ciberespaço como prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir. (Pierre Levy)

E o que isso tem a ver com você?


Bem, somos 7 bilhões de pessoas, cada uma com suas ideias, necessidades, desejos, limitações, gostos pessoais, ideologia, posicionamento político, e uma infinidade de et cetera que agregam um grau de complexidade não apenas de quantidade de pessoas, mas também e principalmente uma complexidade subjetiva – muitas pessoas e muitos pormenores.


O aumento da população faz surgir mais diversidade e a internet permite que elas se encontrem!


Pequenos grupos (comunidades) com interesses específicos relacionados às suas realidades e objetivos, uma superdiversidade e uma superespecialização de interesses, que não sabiam que existiam e que podiam compartilhar.


Então o que vemos hoje são diferentes filosofias, ideologias políticas, teorias educacionais, interesses por alimentação, várias tribos urbanas e a moda de cada uma delas, e mais uma vez uma infinidade de et ceteras...que agora estão se conectando.


E todos estes interesses diversos puderam não apenas se encontrarem, mas também começarem a se manifestar, se reunir, fazer neógicos.


Abre-se o encontro de diversidades em escala local e/ou global.


E a partir disso tem sido possível ver esta superdiversidade nos mais variados lugares, como nas manifestações de rua, nas escolas, dentro das corporações e no mercado.


Por consequencia, nossa civilização não foi mais a mesma e nas palavras de Carlos Nepomuceno, “quando há fatos novos na nossa caminhada para a sobrevivência é preciso aprender a lógica ainda desconhecida”.


Lembra-se das manifestações que ocorreram no Brasil entre os anos de 2013 e 2016?


As pessoas que estavam nas ruas se reuniam em vários grupos menores dentro da manifestação, cada um defendendo uma pauta específica, cada um com uma razão diferente para estar ali.


Existia um ponto de convergência que levou estas pessoas para as ruas juntas, mas chegando lá várias grupos menores começavam a se reunir para defender cada um a sua pauta – vários pequenos grupos defendendo uma superdiversidade de interesses.


E toda esta diversidade só pôde se conectar e se reconhecer porque esta nova plataforma de comunicação (mídia) possibilita essa interação em decorrência do surgimento de comunidades virtuais prévias as quais resultam daquilo que Friedrich Hayek chamou de ordem espontânea, que é o surgimento natural de uma ordem em um caos aparente.


Para Hayek,


Essa ordem, ao implicar um ajustamento a circunstâncias, cujo conhecimento está disperso por um grande número de indivíduos, não pode ser estabelecida por um sistema que centraliza as decisões. Só pode decorrer do ajustamento mútuo dos vários elementos e da sua reação aos eventos que atuam imediatamente sobre eles. [grifos nosso]

A ordem espontânea surge sobre as afinidades, interesses ou projetos individuais que se tornam mútuos em decorrência desta nova plataforma digital que descentraliza informação e possibilita o contato direto entre estes indivíduos, e tudo isso independente de proximidades geográficas e principalmente de filiações a qualquer instituição ou organização.


O novo mercado digital


Agora vamos analisar este impacto sobre a oferta de produtos e serviços no mercado.


Em decorrência do aumento populacional, durante muito tempo a oferta de produtos para consumo foi padronizada e extremamente verticalizada – padronizou-se para se conseguir escalar em quantidade.


E durante muito tempo isso foi suficiente e existia um [pseudo]consenso, afinal não havia muito como reclamar.


“Pode escolher a cor de carro que quiser, desde que seja preta” – H.Ford.


Mas a partir do momento em que, em decorrência desta mudança de mídia, pequenas comunidades começaram a se formar e que esta superdiversidade de interesses começa a surgir e a tomar voz, esta padronização da oferta para consumo passa a não atender mais às expectativas destes consumidores, que são cada vez mais exigentes e que passaram a ter demandas específicas (superespecialização de demanda).


Então temos o seguinte panorama:


  • o aumento populacional aumenta a complexidade na relação entre seres humanos – complexidades objetivas (quantidade) e subjetivas (gostos, interesses, pormenores);

  • por conta deste aumento populacional é possível notar o surgimento de uma superdiversidade de interesses (e a consequente superespecialização da demanda);

  • essa superdiversidade revela-se em função da nova mídia;

  • E esta superdiversidade traz à tona a ilusão do consenso e a manifestação da ordem espontânea.


Surge então o problema a ser resolvido nestes novo século da qualidade na quantidade.


Em um primeiro momento o aumento populacional fez com que o mercado focasse na produção em massa, oferta de produtos padronizados e praticamente impostos ao mercado consumidor de forma verticalizada – era o tempo em que o empresário pensava que cabia a ele dizer ao cliente o que ele deveria consumir.


E isso funcionou até alguns anos atrás. Mas não funciona mais.


Hora de desapegar dos velhos modelos!


Agora o que o consumidor quer é pluralidade de ofertas, é a possibilidade de escolher de acordo com os seus interesses, com as suas necessidades ou os desejos do momento. Busca-se pela qualidade representada pela personalização, comodidade, pelo atendimento e experiência criados antes, durante e depois da compra.


Esta superdiversidade trouxe a exigência pela qualidade que precisa ser garantida em vários aspectos da sua oferta.


Isso nos traz algumas questões a serem observadas para a busca de soluções de mercado:


Uma possibilidade é observar-se um nicho (comunidade) e desenvolver soluções específicas para este público, entendendo sua demanda e trazendo qualidade para uma quantidade melhor delimitada de pessoas.


Ou, se o intuito é atingir várias comunidades (quantidade), será necessário identificar qual o ponto de convergência macro entre elas, ou seja, qual a demanda represada comum entre estes grupos, para então desenvolver um produto ou serviço que solucione esta demanda com qualidade.


Modelos de negócio como Uber e AirBnb vem justamente atender a essa demanda: quantidade com qualidade.


Mas vamos analisar mais de perto como esse tipo de negócio consegue atender à demanda por qualidade.


As principais características destas plataformas, quando olhamos para o produto central que elas oferecem (mobilidade urbana com veículos particulares e locação de imóveis para temporada) observamos que:


  1. Não existe um gerente controlando esta prestação de serviços;

  2. Os prestadores de serviço não são funcionários das plataformas;

  3. O controle de qualidade dos serviços é descentralizado e feito pelos próprios usuários;

  4. O controle do acervo (veículos ou imóveis) também não é centralizado e é feito por meio de algoritmo baseado nas análises e feedbacks dos próprios usuários.


Surge um modelo de negócio baseado em curadoria, ou seja, o cuidado com a prestação de serviços e o acervo é feito de forma descentralizada pelos próprios indivíduos que utilizam destes serviços e que avaliam as condições do acervo e a qualidade do serviço dentro da própria plataforma, deixando este registro acessíveis para os demais usuários que podem se orientar e tomar uma decisão baseando-se nestas avaliações – inauguramos a linguagem dos rastros na civilização 2.0.


Não existe mais um gestor observando as condições do carro ou do imóvel, não existe um gestor avaliando se o motorista Y está dirigindo bem ou sendo gentil com os passageiros, este controle foi reintermediado para as mãos dos próprios usuários.


Veja que ao descentralizar este controle essas paltaformas ganham em escala - ao invés de um centro atender a todos os detalhes do negócio, criam-se micro centros (cada usuário) e assim o negócio acaba por ter mais capacidade para atender de forma personalizada.


Uma plataforma que utiliza deste modelo é, por exemplo, o Mercado Livre – vários vendedores anunciam seus produtos e são avaliados pelos compradores os quais, por sua vez, também são avaliados pelos vendedores.


Assim compradores e vendedores possuem o seu ranking pessoal de avaliação que orienta os demais usuários se devem ou não fazer negócio com determinado vendedor ou comprador – este rastro virtual serve de guia e faz a gestão de qualidade tanto das pessoas que fazem parte daquela comunidade virtual quanto do acervo que é ali dentro comercializado.


Neste novo modelo de negócio usuários mal avaliados são excluídos da plataforma automaticamente ou, se não excluídos, são preteridos pelos demais usuários considerando a sua reputação digital dentro desta comunidade.


Este é o modelo de negócio do mercado digital, com usuários controlando a qualidade dos serviços e do acervo, tendo a liberdade para expressar sua opinião e fazer suas críticas ou elogios, e esta análise individual de cada usuário irá guiar os demais membros daquela plataforma.


Esta curadoria realizada pelos indivíduos daquela comunidade faz com que o controle de qualidade seja exponencial, pois não depende da análise centralizada de um único indivíduo (gestor), mas passa pela avaliação de cada um dos usuários que utilizam daquele serviço.


Estamos diante de uma nova civilização, com uma complexidade demográfica que só faz crescer, com demandas específicas, um novo modelo de comando e controle (administração) e que tem uma nova plataforma de comunicação (mídia) para se reunirem e se fazerem ouvir.


E agora pergunto: como é que o seu negócio vai atender a esta demanda?

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